segunda-feira, abril 27, 2026

PROFETAS DO INFERNO

 Neste final de semana recebi um telefonema (SIM, como os antigos egípcios faziam) de um grande amigo que não vejo há mais de 20 anos e, igual da última vez que nos falamos em 2006 onde marcamos um churrasco que nunca aconteceu até hoje, lembramos de diversos fatos da nossa vida de adolescentes, incluindo um fatídico show da primeira banda que tivemos, lá em 1997, os PROFETAS DO INFERNO.
Imagine jovens pobres da periferia que gostam de hardcore crossover trasheira e, por algum desígnio do destino (e um pouco de QI herdado de nossos pais neuroatípicos), se encontram como bolsistas em uma escola técnica de elite no centro de São Paulo. Para além de todo o desgosto com as "patricinhas" e "mauricinhos" na linguagem da época tínhamos um sonho: montar uma banda punk e tocar - primeiramente - no festival de talentos da escola, depois onde o destino nos levasse.
Eu tinha uma guitarra Tonante de terceira ou quarta mão que não segurava afinação, um pedal metal boss, um microfone de vendedor de amaciante em perua Kombi e um aparelho de som CCE. Meus companheiros de banda tinham um baixo emprestado e uma bateria Pinguim com as peles todas remendadas com aquele durex grosso de fechar caixa de papelão. E todos nós tínhamos um sonho: viver de música. E assim ensaiávamos todo sábado à tarde na garagem deste meu amigo nos cafundós do Jardim Brasil, quebrada da zona norte de São Paulo (com direito a um frango assado com farofa da Frangolândia com guaraná Taí depois do ensaio). 
Enfim chega o grande dia do show. Chamei minha mãe e minha vó, outros alunos também chamaram seus pais e parentes para prestigiar seus talentos, geral posicionada na quadra da escola esperando as bandas, seríamos a quarta atração. Tínhamos enviado uma fita cassete com três músicas: uma cover de Química da Legião Urbana e duas canções autorais falando sobre a desigualdade social. Beleza, passou, chegamos lá. Cada banda podia tocar quatro músicas: tocamos o setlist da fita demo, mas tinha uma "surpresinha" pro final. 

A maravilhosa canção "ELA CAGOU NO MEU P*U"

Eu não vou descrever a letra da música aqui, mas digamos que, devido às palavras impróprias pra nossa idade de 16-17 anos, e pela afronta à moral e aos bons costumes da família tradicional paulistana, quase fomos expulsos da escola depois do show. Minha mãe vermelha como um tomate. Minha vó gargalhava com os palavrões (ela sempre achou muito engraçado ver pessoas falando besteira, descanse em paz dona Alice). Cortaram o som do palco antes do final da música. Meninas aborrecentes chorando em suas camisetas Polo Ralph Lauren. Rimos muito naquele dia vendo a cara da elite de São Paulo horrorizada. Rimos muito mais lembrando deste episódio ontem.

Até que meu amigo me revelou uma surpresa:

 - O Presuntinho me deu uma VHS com nosso show gravado. Ele me deu a fita pouco depois que a gente se falou naquela última vez, foi logo depois do jogo que o Brasil perdeu pra França na Copa, tá ligado?

 - Mas onde que está esta relíquia??? Por favor me fala que eu saio AGORA daqui do interior e vou aí buscar - eu falei.

 - Está no porão da casa do meu pai lá no JB, deve estar toda mofada. E eu nem tenho vídeo-cassete pra assistir! - disse meu amigo.

 - Só falar o dia que a gente vai lá fuçar este porão todinho. E eu tenho vídeo-cassete e sei recuperar fita mofada - respondi.

Enfim, parece que o tal churrasco atrasado em mais de 20 anos finalmente vai sair - ou uma frangada com farofa, pois a Frangolândia continua aberta e funcionando. E, quando eu tiver este VHS em minhas mãos, meus amigos, o mundo nunca mais será o mesmo. Com certeza divulgo o link do vídeo por aqui.